segunda-feira, 7 de junho de 2010

FALECEU SALDANHA SANCHES


No passado dia 14 de Maio, faleceu José Luis Saldanha Sanches, ex-militante do PCP, ex-maoista convertido à democracia liberal, destacado fiscalista e professor universitário, acérrimo e intransigente defensor da liberdade.


Nunca o conheci pessoalmente, mas militámos no mesmo partido, o MRPP (Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado), que Sanches abandonou ainda em 1975, tinha eu apenas 16 anos. Para todos nós, José Luis Saldanha Sanches, Homem dotado de raras inteligência, eloquência e coragem física e psicológica, era um exemplo. Quando ocorreu o 25 de Abril, tinha 30 anos de idade e somava 7 anos de prisão nas masmorras da ditadura.


Bem jovem, no início dos anos 60 do século passado, Saldanha Sanches aderiu ao PCP, tendo sido seu funcionário e dirigente da Juventude Comunista. Em 1965, já destacado dirigente estudantil, foi cercado pela PIDE, que enfrentou "à batatada", sendo atingido a tiro num ombro. Após hospitalização, seguiu sob prisão para Caxias, tendo posteriormente sido condenado, no Tribunal Plenário da Boa Hora, em 6 anos de prisão. Quando trabalhei naquele Tribunal, fiz muito serviço na chamada sala do plenário. Sempre que ali entrava, bem como em alguns calabouços destinados aos presos políticos daquele tempo, recordava o heroismo com que Saldanha Sanches e tantos outros lutaram pela liberdade e ali enfrentaram uma ditadura reaccionária.


Nessa época, decorria a grande cisão no movimento comunista internacional entre os pró-soviéticos e os seguidores de Mao e Enver Hodxa. Muitos jovens da geração de Saldanha Sanches optaram pelo maoismo. Este, apesar de crítico de Krutchev, Brejnev & Cª, e de também optar pelo maoismo, decidiu permanecer no partido já então liderado por Álvaro Cunhal. Certamente, as organizações maoistas que então apareceram não o atraíam. Compreendemos. A primeira dessas organizações, o Comité Marxista-Leninista Português/Frente de Acção Popular (CMLP/FAP), saído do PC e liderado por Francisco Martins Rodrigues, já falecido (o camarada Campos), fez uma considerável divulgação dos ideias maoistas. No entanto, tinha uma actuação perfeitamente aventureira. Entre as suas acções conta-se o atirar de um petardo para uma esquadra da PSP que não explodiu ou a colocação de uma bomba por um rapaz de 16 anos, a qual, ao rebentar, lhe arrancou um braço, acabando o mutilado preso pela PIDE. Para cúmulo, o próprio Francisco Martins Rodrigues, após ter abatido a tiro o pide Mário Mateus, infiltrado na organização, acabou na cadeia, onde não aguentou a tortura e delatou muitos camaradas, ajudando, aliás, a polícia política a desmantelar parte considerável da organização.


Os militantes do CMLP/FAP que conseguiram escapar à repressão policial fugiram para França, juntando-se a outros que lá estavam exilados. Aí reorganizam o CMLP, extinguem a FAP, seu braço armado, e mergulham numa grande ortodoxia. Correm com Francisco Martins Rodrigues, a partir daí conhecido por Chico Bufo, dado o seu vergonhoso comportamento na prisão, passando a ser liderados por Heduino Gomes (Vilar), hoje adepto de... Salazar. Como lhe disse num debate, há mais de 20 anos, o próprio Saldanha Sanches, o maoismo de Heduino era muito chato.


Organizações saídas do CMLP em cisão com o então apelidado grupo vilarista primavam pelo aventureirismo e suscitavam a hilariedade.


Em 1970 era fundado o MRPP, liderado desde a primeira hora por Arnaldo Matos, o "camarada João". Um ano depois, Sanches sai da cadeia e adere a este partido. Em 1968, na sequência da invasão da Checoslováqui e do Maio de 1968 francês, abandona definitivamente o PCP pela esquerda, como fizeram António Barreto, Medeiros Ferreira, Silva Marques, Carlos Antunes, Isabel do Carmo, João Machado, Fernando Rosas ou Vidaul Ferreira. Os três últimos, com Arnaldo Matos, constutem o núcleo fundador do MRPP. Arnaldo Matos nunca pertenceu ao PCP.


Saldanha Sanches, como brilhante líder e orador, facilmente sobe na hierarquia do MRPP, chegando ao seu Comité Central. Quando Ribeiro Santos foi assassinado pela PIDE em 1972, estava a seu lado.


Aquando do 25 de Abril, estava novamente preso. A seguir àquela data, foi o primeiro "MR" a dar a cara pelo partido, pois era o único dirigente conhecido pela opinião pública, dado ser director do órgão central do movimento, o "Luta Popular", o que levou alguma imprensa, em grande parte pela situação de semi-clandestinidade em que o MRPP teimava em continuar, a considerá-lo seu líder, o que, de facto, nunca foi verdade.


Em Junho de 1974, contestando o projecto neo-colonial do então Presidente da República António Spínola, escreve no "Luta Popular" um editorial cujo título diz tudo: "Desertemos e com armas". Por tal motivo, esteve preso durante 4 meses no Forte de Elvas. Foi o primeiro preso político de esquerda após o 25 de Abril.


No Outono de 1975, desilude-se com o MRPP, que abandona. De seguida, publica o livro intitulado "O MRPP como centro da contra-revolução". Aí diz que Arnaldo Matos, "como todos os pequenos bonapartes, sente-se bem entre palhaços que rivalizam entre si no elogio fácil e barato ao chefe. Por esses palhaços o chefe sente o maior dos desprezos". Mostra a desorganização do partido, em cujo dinheiro todos metiam a mão, sem prestar contas. Denuncia os lambe-botas, que outro nome não mereciam, que constituiam a maioria do Comité Central . Mais: revela que o seu sucessor à frente do "Luta Popular", Fernando Rosas, destacada figura do BE, foi delator e fez várias denúncias à PIDE, primeiro no PC e depois, no MR. Quem conheceu o MRPP sabe que tudo isto era verdade e Arnaldo Matos não passava de um charlatão. Durante alguns anos ainda passou pelo PCP(R)/UDP, que o desiludiu. A experiência mostrou-lhe, como a muitos de nós, que o mal estava no marxismo-leninismo, ideologia totalitária e concentracionária, igual ao nazismo e pior que os fascismos, tendo feito a sua conversão, como a maioria dos esquerdistas, dirigentes ou militantes de base nos anos 60 e 70, à democracia parlamentar. Em 1984, com antigos esquerdistas como Pacheco Pereira, Vilaverde Cabral, João Carlos Espada, António Costa Pinto, José Lamego, Acácio Gomes, Acácio Barreiros, Teresa de Sousa e tantos outros, ajuda a criar o Clube da Esquerda Liberal e a sua revista, "Risco", dirigida por Espada, numa demonstração de que pode ser-se de esquerda, defender o mercado, o mérito pessoal e, numa palavra, o capitalismo, desde que regulado pelo Estado de Direito Democrático, e com consciência social.


Mais tarde, teve um "flirt" com o BE, que abandonaria. Faleceu como defensor intransigente da liberdade, a democracia e os direitos humanos, denunciando os totalitarismos de direita e de esquerda. Como fiscalista e colaborador da imprensa denunciou a corrupção política, a nível central e local.


A tua voz, sempre em defesa da justiça, da liberdade e da democracia deixa falta, Saldanha Sanches. A tua morte, como a morte de qualquer ex-camarada, significa a morte de um pedaço de todos os que serviram o PCTP/MRPP honestamente e não pactuam com a palhaçada em que há muito se tornou tal organização, a qual, como disse há uns anos Durão Barroso, é constituida por gente anormal.


Honra ao camarada Saldanha Sanches !

terça-feira, 4 de maio de 2010

O PSD E O CRAVO DE ABRIL

Nas comemorações do 25 de Abril na Assembleia da República, o líder do PSD, Pedro Passos Coelho, e Aguiar Branco, que interveio em nome daquele partido, compareceram de cravo vermelho ao peito.
Aquele gesto significa que:
1º - o 25 de Abril não tem donos. Também não é de todos os portugueses. Obviamente, não é dos nostálgicos do regime salazarista e inimigos da democracia, mas é de todos os que se identificam com o Estado de Direito Democrático, as liberdades fundamentais e os direitos humanos.
2º - O PSD é um partido identificado com os ideais do espírito original de Abril, deturpado por certa “esquerda” durante o PREC.
3º - Quem, dizendo-se do PSD, é contra o 25 de Abril, melhor será procurar lugar em outro partido mais à direita.
4º - O PSD não é de direita, nem conservador. A este propósito, foi com satisfação que vi, em entrevista concedida ao semanário “Sol”, a primeira vice-presidente social democrata, Paula Teixeira da Cruz, afirmar não haver qualquer aproximação do PSD ao CDS, repudiando o conservadorismo social e de valores do partido liderado por Paulo Portas e defendendo a participação do PSD em eleições sem coligações, mas apenas aberto a independentes, política e ideologicamente situados próximo do partido.

terça-feira, 27 de abril de 2010

AINDA O POLITICAMENTE CORRECTO E A CONSTRUÇÃO EUROPEIA

No post anterior e a propósito da morte do Presidente da Polónia, referimo-nos às críticas do politicamente correcto, no caso, através de uma jornalista da RTP paga, em boa parte, com os impostos de todos nós, a quem não alinha com o Tratado de Lisboa e é apelidado de "nacionalista".
Na sua recente visita a Praga, foi o "europeista" (leia-se federalista) Cavaco Silva quem ouviu as que não esperava do Presidente da República checo, Vaclav Klaus. Disse este que o seu país, porque tem um défice de 5% do PIB, vive muito preocupado, tendo aconselhado Portugal a não falar do seu défice (9,4%). Afirmou ainda "aprofundar o Tratado de Lisboa o défice democrático europeu".
Os nossos europeistas de pacotilha, que incluem a anterior direcção do PSD (acerca da matéria não são conhecidas as posições do novo PSD. Não coloco a expressão NOVO entre aspas propositadamente), o PS e o CDS, em tempos próximo do autêntico nacionalismo reaccionário de Le Pen ou Haider, hoje euro-calmo, que, seguramente, ninguém sabe o que significa, considerarão Vaclav Klaus "nacionalista", "inimigo da integração europeia", etc.
O presidente checo sempre esteve empenhado na edificação de uma Europa Unida. Daí a adesão da República Checa, com o seu apoio, à UE, há vários anos, e a defesa que faz da aliança e solidariedade transatlânticas. Não quer, e bem, é ver a maioria dos países da comunidade subordinados aos grandes, especialmente ao eixo franco-alemão. Parece ser dos poucos políticos e estadistas a ver o alcance das posições - essas, sim, nacionalistas - do marido de Carla Bruni, em defesa da agricultura francesa, prejudicando a agricultura polaca, ou as reticências de Angela Merkel em apoiar a Grécia. Além disso, viu o seu país ocupado pela defunta URSS em 1968. Sabe bem o que é ser dominado por estrangeiros, pelo que quer uma Europa unida, mas livre, na qual todos os países sejam tratados em pé de igualdade. PS: o CDS, apesar de ter passado a "euro-calmo", não deixou de ser um partido próximo da direita radical, como se pode ver pela sua política securitária e em defesa do pior que pode ter o conservadorismo social. Por isso, o PSD deve rejeitar qualquer aliança com tal partido e efectuar uma "coligação" com o país, como foi aprovado no seu último congresso, unindo o centro-direita, o centro e o centro esquerda. Uma aliança com o CDS afastará o eleitorado central, beneficiando o PS, o qual, caso afaste com o seu actual líder e encontre o seu Tony Blair, poderá ficar no poder por muitos e bons anos.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

A MORTE DO PRESIDENTE POLACO E A CORRECÇÃO POLÍTICA


O Presidente da República da Polónia, Kaczinsky, tragicamente falecido em acidente de avião, na Rússia, no passado fim de semana, cultivava o conservadorismo político e social, dentro do regime democrático, o que não se pode afirmar, por exemplo, relativamente a certos conservadores portugueses, mas isso são outras estórias…

Desempenhou um papel importantíssimo na luta pela democracia durante a ditadura comunista, tendo sido um dos fundadores e activistas do SOLIDARIEDADE, bem como depois da instauração do regime democrático no seu país, antes e após ser eleito Chefe de Estado. Tais características foram mencionadas e destacadas por vários políticos e estadistas do mundo inteiro, entre os quais, Cavaco Silva, José Sócrates e dirigentes do PS, do PSD e do CDS. Numa reportagem realizada no canal 1 da RTP sobre o acidente em causa, uma jornalista qualificou o falecido presidente como “fortemente anti-comunista e nacionalista”, numa demonstração “politicamente correcta”.

Kaczinsky foi anti-comunista, porque sentiu na pele os efeitos do regime marxista-leninista. Sabe que a segunda grande guerra mundial teve início com a invasão da sua pátria pela Alemanha nazi, na sequência de um pacto feito pela mesma com a URSS de Estaline. Sabe que cerca de 20 000 compatriotas seus foram chacinados pelo Exército Vermelho soviético em Katyn e não pelos alemães, como afirmava a versão oficial comunista até ser desmentida por Gorbatchev. Aliás, quando faleceram, o Presidente polaco e os seus acompanhantes dirigiam-se àquela localidade, a fim de com Medvedev e Putin prestarem homenagem àqueles polacos. Anti-comunistas são também os autores do “Livro Negro do Comunismo”, cujo coordenador, Stefan Courtois, foi comunista de linha maoista e activista do Maio de 68 francês, sendo ainda hoje de esquerda (liberal). O termo “fortemente”, e no tom que foi dito pela jornalista, demonstra complexos “politicamente correctos”. Como se os totalitarismos não fossem irmãos gémeos…

O mesmo complexo está inscrito na referência ao “nacionalismo” de kaczinsky, a propósito das suas ideias sobre o futuro da UE, como se fossem chauvinistas ou isolacionistas, à semelhança dos nacionalismos de Hitler, Mussolini ou Salazar. Kaczinsky defendeu, com patriotismo, os interesses do seu país aquando da aprovação do Tratado de Lisboa e do federalismo que lhe está subjacente, beneficiando os grandes países, especialmente a França e a Alemanha. Não foi, aliás, por acaso, que o cinzentão e desconhecido Van Rompuy foi eleito Presidente do Conselho da UE.

Se recusar o domínio pelos grandes é “nacionalismo”, como definir o proteccionismo de Sarkozy ou a atitude do governo alemão de Schroeder quando, há mais de 10 anos, vetou a compra de uma cadeia de super-mercados germânica por idêntica cadeia inglesa pouco após a Rolls Royce ser adquirida pela BMW sem qualquer objecção do então governo de Tony Blair? Desta forma a televisão pública vai passando mentiras por verdades e vice-versa, fazendo lembrar algumas previsões de George Orwell no livro “1984”, escrito em 1948.

terça-feira, 13 de abril de 2010

A Lei da Rolha e o Dr. António Carlos Figueiredo


Durante o congresso do PSD e num momento de clara descontração, (aliás, todo o congresso foi bastante descontraído, como, de resto, todas as propostas apresentadas também o foram, tal a falta de substância) o «nosso» presidente, Dr. António Carlos Figueiredo, a propósito da chamada Lei da Rolha, deixou-me (e presumo que a muitas outras pessoas) a seguinte dúvida: onde é que a rolha ficava bem ao jornalista ?


Sinceramente fiquei confuso e o «piii» da censura não ajudou a clarificar a resposta à minha dúvida...




terça-feira, 6 de abril de 2010

AS DÍVIDAS DO PSD




MILITANTES DO PSD OPTAM PELA MUDANÇA

O Partido Social Democrata (PSD) optou pela mudança nas eleições recentemente ocorridas para a sua liderança. Paulo Rangel e Aguiar Branco, que colaboraram com Manuela Ferreira Leite e significavam, mais o primeiro que o segundo, a continuação da sua política, obtiveram, no total, cerca de 38% de votos. Pedro Passos Coelho, o candidato assumidamente da mudança, na sociedade e no partido, recolheu cerca de 60% da votação.
Estes resultados provam que a anterior direcção do PSD estava divorciada das bases, como outras anteriores. Eis a principal explicação para as sucessivas derrotas quer o partido registou nos últimos 5 anos.
Passos Coelho demonstrou na campanha ser o melhor preparado para a liderança e para derrotar o governo decrépito, incompetente e desacreditado de José Sócrates. Isso mesmo expressaram maioritariamente os sociais democratas, rejeitando o desvio de direita e conservador e a sua possível continuidade. Eu sei que o termo "desvio de direita" é da autoria de Mao Tsé Tung. É escusado algum comentador lembrá-lo. Eu próprio o faço, porque independentemente do autor da expressão, era um risco que o PSD corria, deixando o eleitorado central ao PS.
Passos Coelho, com a defesa de um liberalismo político, económico e de costumes, com consciência social, representa hoje a social democracia portuguesa, no que tem de específico e de diferente da social-democracia dos partidos da Internacional Socialista, tal como foi concebida em outra situação pelos fundadores do PPD, especialmente Sá Carneiro. Com a aplicação prática das ideias divulgadas por Passos Coelho e os que com ele estiveram, o PSD caracterizar-se-á pela sua matriz de sempre: um partido central e reformista, que capta todo um conjunto de eleitores, do centro-direita ao centro-esquerda.
O novo líder estendeu, após a vitória, a mão aos seus adversários, convidando-os a entrarem nos órgãos nacionais do PSD a serem eleitos no próximo congresso. Aquele gesto foi correspondido pelos mesmos, pelo que se prevê uma nova unidade de todos os sociais democratas, convergente de diferentes opiniões integradas no mesmo ideário. Agora, os adversários são Sócrates e o PS, cuja política há que derrotar.